A primeira vez que ouvi Construção eu me apaixonei. Tá, eu me apaixonei logo de cara por quase todas as músicas do Chico. As outras fui gostando aos pouquinhos até amá-las. Sou fã incondicional do cara e não me envergonho nada. Só não me atirei nos braços dele nas poucas vezes em que a gente se encontrou (na rua, no metro de Paris e no Jardim Botânico) porque a Marieta estava do lado. Hummmm.
Quando ouvi Construção a primeira vez, tocou fundo. Eu tenho problemas com a rotina desde pequena. A rotina me deixa triste, deprimida, cabisbaixa. Então eu me imaginei trabalhando numa construção, todo dia igual, a falta de perspectivas os prazeres pequenos, simples e tortos... eu me jogaria lá de cima e provavelmente iria atrapalhar o sábado (de alguém!). Então, percebendo a miséria dos outros, alinhei minhas espectativas.
Além disso, que construção de palavras!!!... O Chico para mim é o Escher da música. (E eu também amo o Escher e a suas visões entranhadas, suas construções elaboradas e esta coisa meio paranóica pelos detalhes.) Pode sacudir Construção, virar de cabeça pra baixo, torcer, virar de lado. A cada vez você vê uma coisa nova! E se não quiser fazer nada disso também não importa, tá lá, escrito preto no branco, entrançado e entranhado... Inveja viu.... Queria saber usar as palavras tão bem...
Hoje estou no meu modo Construção, não por conta de uma rotina enfadonha, mas porque este é outro dia da minha vida que me deparo com a minha dificuldade de me comprometer por medo de tornar a minha vida uma passagem sem surpresas...
Então segue lá, música do dia: Construção
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Inté!
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