Era um dia frio de inverno na cidade de Lisboa. Durante mais de duas horas, chovia sem parar e não havia ainda sinal da parteira que havia mandado chamar ou do genro. Um dos dois havia de aparecer a qualquer momento. Dona Eulália não sabia mais o que fazer. Maria Joaquina estava a parir e Eulália já considerava fazer o parto ela mesma. Havia sim parido três filhos, mas a bem dizer, foi por forças das circunstâncias, pois nunca foi muito afeita nem a dores nem a sangue. Nas duas primeiras vezes havia desmaiado durante o parto e acordado com a criança já lavada em seus braços. Na terceira vez, justo quando Joaquina nascera, fora capaz de suportar as dores até o fim e até conseguiu ver, em meio as lágrimas de dor, a filhinha ainda ensanguentada nos braços da parteira.
Depois de Joaquina, nunca mais engravidara. Agradecia a Deus pelo fato e a umas ervas recomendadas às escondidas pela mãe, que se apiedou do pavor da filha com uma nova gravidez. O marido ao ver que a mulher não mais engravidava, se queixou por algum tempo. Dizia que os Borba Aragão eram conhecidos pela prole extensa, que era inconcebível que ela não lhe desse mais filhos, que ele se tornaria a vergonha da família, que o pai já estava a reclamar, mas logo se aquietou. Envolveu-se rapidamente a educar os filhos mais velhos , Eunice e João Alfredo, já em idade de alfabetização. Fazia questão de ler para eles livros complicadíssimos da sua extensa biblioteca. Os meninos se aborreciam, dormiam ou desatavam a brincar com as bordas das almofadas. Joaquim ralhava. Achava um absurdo a falta de interesse dos meninos e Eulália precisava intervir para que não os deixasse de castigo por muito tempo. O marido realizou-se porém com a filha caçula. Esta sim sempre foi estranha, desde o parto. Quando trouxeram-lhe a criança já lavada, a pequenina lhe arregalou os olhinhos. Nunca vira coisa tão estranha. Parecia que caçoava da mãe pela falta de coragem. Chorou uma coisa pouca e a ama lhe levou para dar de mamar. Eulália olhou para a janela do quarto, resmungou do cansaço, do trabalho de parir e pelo tempo lá fora, tão em contraste com seus sentimentos, sentiu-se injustiçada e jurou para si mesma que nunca mais teria outro filho.
Caso precisasse ajudar Joaquina no parto, temia que fosse mais uma vez perder as forças e desmaiar antes da criança nascer. Não tinha jeito, a filha teria que arranjar-se sozinha. O único parto que presenciara fora exatamente o desta filha e dele não tinha nehuma emoção alegre. Ademais, não suportava o cheiro de sangue. Havia sido sempre assim, desde criança. A visão de qualquer corte ou arranhão já se sentia fraca, o cheiro podre a penetrar-lhe as narinas, as pernas bambas, o suor frio e a visão turva. Por quase nada desmaiava. Aprendeu logo cedo a comportar-se de forma a nunca se machucar. Fazia todas as atividades com uma calma premeditada de forma que não precisasse fazer movimentos bruscos que a fizessem perder o equilíbrio. Sem dúvida, seus movimentos eram graciosos como uma bailarina. Evitava lugares movimentados e mal saía à rua. Preferia ficar em casa cuidando de sua toalete, conversando com a irmã ou tocando piano.
Era seu único prazer, o piano. Desde menina aprendera a reconhecer o calor das notas, a frieza das teclas e o ritmo suave das músicas. Praticava diariamente e por tanto sentimento e destreza acabou livrando-se dos afazeres domésticos. A mãe e a irmã lhe pediam que continuasse a tocar enquanto estas se entretiam no árduo trabalho de cerzir. Quando menina, Eulália parecia uma boneca. Os olhos azuis, os cabelos claros e cacheados, a pele alvíssima. Um bibelô delicado e frágil. Um mimo para os pais e os irmãos. Ninguém nunca lhe negara nada, nem tão pouco lhe causava algum desprazer. A bem dizer, era de uma constituição doce e gentil e tão meiga que era realmente impossível não lhe satisfazer os desejos. Por isto não foi de se espantar quando o austero Sr. Albuquerque Guimarães consentiu que a filha de 16 anos casasse com o jovem Joaquim Pedro Borba Aragão.
Fazia o gosto do pai casar as duas filhas no com os filhos caçula do velho Borba Aragão com quem tinha negócios em Portugal e com quem queria alargar a sociedade, de olho nos lucros que o sócio obtinha com seus negócios no Brasil. Senhor autoritário, de largas posses, diziam que o Borba Aragão era dono de imensas terras em Espanha, herança de família, e que enriquecia rapidamente com as iguarias que exportava do Brasil para a Europa. Comandou com mãos astutas o destino dos sete filhos e da única filha, garantindo para si e sua família direitos e concessões. O filho mais velho casou-se com uma senhora da casa de Castella e vivia na Espanha, mantendo assim o direito das suas posses as quais haviam sido usurpadas pelo primo espanhol. O segundo, conforme a tradição, ordenou-se padre e com um pouco de sorte, dinheiro e conexões, tornou-se arce-bispo da Igreja Católica na Itália. O terceiro tornou-se general do exército português. Para a única filha, Borba Aragão arranjou casamento com um conde da casa dos Bragança e girava na corte. Os dois que a seguiam em ordem de idade embarcaram para o Brasil para tocar os negócios do pai, um deles já de casamento marcado com a filha do vice-rei José Luis de Castro. Restou-lhe os dois filhos mais novos os quais mandou estudar na França a fazer carreira no magistrado. Interrompeu-lhes os estudos, quando depois de uma crise de gota , o velho Borba Aragão resolveu se aposentar e mandou chamar os filhos para tocar os negócios portugueses.
O Sr. Albuquerque Guimarães, ao saber do retorno dos dois moços Borba Aragão tratou logo de oferecer um jantar em homenagem aos jovens de 25 e 23 anos no qual os filhos da mesma idade e a filha de 22 também estavam presentes. João Ernane Borba Aragão, que estava animado em assumir os negócios do pai e desejava logo estabelecer-se em uma boa quinta em Lisboa, encantou-se com a desenvoltura e praticidade da jovem Ana Beatriz . Em poucas semanas os dois sócios já tratavam do casamento dos filhos, que deveria acontecer assim que uma boa residência fosse arrendada para a moradia do jovem casal.
Durante as visitas a noiva, João Ernane trazia consigo o irmão Joaquim Pedro, romântico idealista que nada queria saber dos negócios do pai, importando-se mais por política social e medicina. Nestes encontros Eulália estava sempre presente, juntamente com os irmãos mais novos a fazer companhia aos noivos. Foi-se acostumando ao convívio com Joaquim. O moço, encantado com sua doçura e beleza, lhe fazia agrados, mas tratava-a como criança.
Borba Aragão, logo percebeu um interesse romântico a jovem moça em relação ao seu filho mais novo. E sabendo da disposição do filho, da condição precária de sua saúde e na mulher que se beneficiaria de tão meiga companhia, pensou que seria melhor garantir-se de companhia e entretenimento, casando o filho mais novo com a pequena Eulália. Tão logo chegou a esta decisão, propos ao sócio Albuquerque Guimarães que fizessem um casamento duplo pedindo a mão da rapariga Eulália para o filho caçula. O moço Joaquim Pedro surpreendeu-se. Não havia pensado nesta hipótese e achava a menina ainda muito moça e fútil , visto que nunca a havia visto lendo ou fazendo qualquer outro serviço feminino além do piano, no entanto, devido às suas condições financeiras, concedeu aos desejos do pai. Eulália, por sua vez, iluminou-se. Desde o noivado da irmã deixara de ter a totalidade das atenções da casa e havia passado a apenas acompanhante. Mordia-se de ciúmes pela alegria do casal e nutria de grande admiração por Joaquim Pedro, que em sua meninice era-lhe a imagem de um príncipe com seu porte alto e sua fala pausada. Quando o pai veio lhe contar o absurdo da proposta do sócio, logo fez questão de mostrar-lhe que não lhe desagradava a idéia e que casar-se ao mesmo dia que a irmã era uma honra tão grande que não poderia furtar-lhe a benevolência do pai. Ainda incerto pela pouca idade da filha, Albuquerque Guimarães tentou argumentar um adiamento do casório para dois anos após, quando a moça já tivesse mais idade e mais destreza na lida de uma casa, mas diante da insistência do sócio e da impaciência da filha acabou consentindo. Foi assim que Eulália Cristina, de forma tão doce e ingênua, casou-se ao mesmo tempo que a irmã seis anos mais velha.
Perdida em seus pensamentos, Eulália mal prestava atenção à filha que já se preparava a fazer o parto sozinha. Joaquina andava pela casa dando ordens a criada a buscar toalhas brancas e a esquentar água. Parava, levava a mão a boca para suprimir o grito e seguia corajosamente a arrumar a cama para o parto. Olhava a mãe com o olhar perdido. Com certeza a relembrar com horror o nascimentos dos flhos. Sabia que mãe em nada lhe judaria, mas como esta veio lhe visitar de manhã, ficando até depois do almoço, não pode voltar a casa quando começou a chover. Esperava que o marido voltasse logo, ou que a parteira chegasse a qualquer momento. Não tinha medo de parir sozinha. Sabia exatamente o que fazer pois havia estado presente a todas as vezes em que a irmã Eunice dera a luz. Sabia como deveria proceder e orientava a criada a ajudá-la, mas preferia não ter que fazê-lo sozinha. A criada era muito nova e não lhe parecia muito corajosa. Não lhe preocupava a dor, sabia que iria suportá-la bem, mas temia ser necessário alguma ajuda para forçar a saída do bebê. Havia sido assim nos três últimos partos de Eunice e não fosse a experiência da parteira a irmã e os sobrinhos poderiam ter morrido. Bom, de nada adiantava a preocupar-se. Ainda tinha algum tempo e a parteira já havia sido avisada. De certo demorava pela chuva, mas logo estaria em casa. É certo que em condições normais, a parteira teria sido chamada a ficar a casa com antecedência, mas as contrações iniciaram apenas ontem e ainda lhe faltava quase um mês para o término da gestação. Imaginava que teria ainda mais algum tempo, mas o bebê apressou-se. Temia-lhe pela saúde. Não importava consigo, sabia que resitiria, mas temia que a criança sobrevivesse. Estava casada com Patrício havia cinco anos e depois de tanto tempo achava que nunca engravidaria. Não invejava a irmã, que já havia parido 8 vezes e a cada nova gestação parecia estar se tornando cada vez mais etérea e distraída, mas lamentava-se pela falta de um rebento seu, um filho que pudesse mimar como não o podia fazer com o marido. Tinha um casamento feliz, imaginava que o mais feliz de todas as suas conhecidas. O marido sempre lhe era atencioso e pouco se importava consigo mesmo. Por este motivo era difícil entender-lhe as vontades. Permitiu-lhe que continuasse a estudar e a escrever. Se nunca publicara seus livros não fora por falta de incentivo do marido, mas por uma inconsciente aquiescência ao preconceito da mãe. A mãe, tendo vivido sempre em meio a aristocracia, desprezava qualquer tipo de trabalho que uma mulher poderia exercer que não fosse unica e exclusivamente para fins domésticos, e apesar de escrever por prazer e recreação, caso passasse a publicar, estaria descendo na escala social e desagradando de uma vez por todas a mãe.
Esta nunca conseguiu lhe entender as motivações. Enquanto enaltecia as qualidades domésticas de Eunice ou as travessuras de João Alfredo, ria-se da seriedade com que Joaquina dedicava-se aos estudos e recomendações de leitura do pai. O pai não, sempre lhe incentivara e havia chegado a registrar Joaquina em uma escola para moças em Paris. O avô Borba Aragão proibiu. O velho, já moribundo, ainda fazia questão de mostrar quem mandava naquela casa. Intrometeu-se com o destino de todos os netos, da mesma forma que fez com os prórpios filhos. Calou-se por anos após a morte de João Alfredo e somente voltou a dar opinião na questão da educação de Joaquina. Ameaçou deserdar a todos caso Joaquim consentisse que a menina estudasse, pois já a considerava impertinente demais com tão pouca idade para arranjar algum marido digno.
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